segunda-feira, 25 de junho de 2007

Novos textos, novas extensões. Novo homem?

Enio Moraes Júnior

Gosto da palavra. Gosto especialmente da palavra escrita. Plagiando o pensador canadense Marshall McLuhan (1964), que nos anos 60 disse que os meios de comunicação são extensões do homem, costumo dizer que as nossas palavras são a exata extensão do que somos e do que conhecemos.
Sou jornalista e professor de Comunicação Social há mais de dez anos e sempre tive especial predileção pelas teorias da comunicação e do jornalismo. Num país onde professores de jornalismo, por razões pessoais ou exigências profissionais, decidem entre a carreira acadêmica e o batente, ironicamente fui levado ao batente da reportagem como uma exigência das teorias acadêmicas.
Por um lado porque comecei a preocupar-me em desenvolver um modo mais atraente de chamar a atenção dos alunos para o que eu estava propondo. Na sociedade da técnica e da imagem, o aluno de comunicação social (e, ao que parece, das outras áreas também) está normalmente mais inclinado com o conteúdo prático do curso e um caminho a levá-lo a teorizar, a refletir, é colocá-lo em contato com a dinâmica da vida profissional e com a própria produção.
Comecei a utilizar conceitos e reflexões como indústria cultural (Adorno e Horkheimer), sociedade do espetáculo (Debord) e jornalismo como "modelo de publicidade" (Chomsky) para dissecar e a interpretar matérias jornalísticas de jornais, revistas e sites.
Por conta dessa forma de trabalho, entusiasmei-me com a prática da reportagem e, embora a vida acadêmica seja minha prioridade, há alguns anos estou no mercado também como repórter e revisor. No meu caso, em vez de atrapalhar, esse caminho tem ajudado na vida acadêmica.

O texto jornalístico
Uma das coisas mais instigantes que tenho feito nos últimos dois anos é produto dessa experiência. Tenho me preocupado, a partir das teorias e do trabalho de reportagem, com os rumos do texto jornalístico diante do advento das novas tecnologias de comunicação.
Na primeira quinzena de junho, São Paulo foi sede do MediaOn, I Seminário Mundial de Jornalismo On Line, cuja abertura contou com nomes como Paulo Henrique Amorim e Michael Rogers, do grupo New York Times.
Uma das indicações dos painelistas do evento foi que ainda estamos muito longe de prospectar o que realmente viremos a ser nos próximos dez ou quinze anos. A convergência midiática praticamente ainda não começou e estamos convivendo apenas com a primeira geração que cresceu com a internet.
O filósofo tunisiano Pierre Lévy (2003) disse há pouco tempo que as novas tecnologias de comunicação implicam novas formas de ser e estar no mundo. Considerando que elas implicam também novas formas de comunicação, são também novas formas de extensão.
O que tem chamado minha atenção nesses últimos tempos e instigado meu trabalho é exatamente apreender o sentido do texto jornalístico na era neotecnológica.
Mas acho que a palavra, falada ou escrita, continuará a existir e uma lição de Graciliano Ramos ainda ecoará por muito tempo pelas redes (NERY, [s.d]):

[...] deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa seja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso: a palavra foi feita para dizer.

Embora estejamos entrando em um mundo de novos significados, de novos textos e de novas extensões, estamos criando novos homens? Penso que sim. Mas penso também que a palavra, as teorias e o jornalismo, tríade de que tanto gosto, deve permanecer num esforço contínuo para que o homem continue humano.

Referências bibliográficas
LÉVY, Pierre. Pela Ciberdemocracia. In: MORAES, Denis de (org). Por uma outra comunicação. Rio de Janeiro: Record, 2003.
McLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1964.
NERY, Alfredina. Coesão e coerência. [s.d]. Disponível em: Acessado em 15 de outubro de 2005

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Educação cidadã: Um caminho para ser jornalista

Enio Moraes Júnior
"Vale a pena ser jornalista?". Deparei com este título num artigo escrito por Fernando Evangelista na edição de dezembro da revista Caros Amigos. Depois do relato de diversas circunstâncias que colocaram em xeque as suas certezas a respeito da profissão, o autor concluiu, enfático:

Vale (a pena) se tivermos ânimo para ultrapassar as fronteiras proibidas, fronteiras bloqueadas pela censura, pela ignorância, pela mentira. Vale ser tivermos os olhos bem atentos, para ver o delicado, o diferente, o invisível. É preciso coragem para se comprometer, para dizer o que se vê e o que se sente, sem medos nem manuais.

Penso que a educação, a escola e a formação profissional têm um papel fundamental para fazer valer a pena ser jornalista, ou seja, para ultrapassar as fronteiras da desinformação e abrir os olhos para as crueldades e arbitrariedades que vêm sendo cometidas contra seres humanos em nome do capital. Em outras palavras, penso que a formação de jornalistas cidadãos comprometidos com cidadãos seja o ponto de partida para valer a pena ser jornalista.
Num mundo globalizado, de alto desenvolvimento tecnológico, mas que ainda tem muito que aprender e implementar no que diz respeito às relações humanas, pensar a educação é desenvolver um sentimento de cidadania e alteridade. Como observa Gilberto Dupas (2001: 123):

(...) é preciso buscar condições para que uma nova hegemonia mundial, que inclua mas não constranja o capital, possa construir um mundo melhor, utilizando-se dos avanços da ciência em benefício da grande maioria de seus cidadãos.

Assim, é importante que as escolas de Jornalismo tenham como parte do seu projeto pedagógico o estímulo ao diálogo, à troca e a uma visão holística do aluno. É imprescindível como forma de sobrepujança do humano ao capital uma formação comprometida com a cidadania centrada "na pessoa" do estudante, como observa Carl Rogers (1973), e responsabilizando politicamente o educando, como diz Paulo Freire (1987).
Na formação profissional do jornalista, a convivência democrática com a diferença, com pontos de vista díspares (seja de autores, professores ou colegas), complementares e inquietantes e, ao mesmo tempo, o exercício diário de lidar responsavelmente para si e para o outro (seja a fonte de informação, seja o público) com a diversidade, são elementos importantes para uma conduta profissional cidadã. No entanto, esse resultado só será conseguido se a cidadania for discutida – e praticada – na escola; na formação do jornalista.

Jornalismo e novas tecnologias

Embora a formação curricular do jornalista seja importante para a apreensão do conceito de cidadania por fundamentá-lo teoricamente, só cidadãos e espaços cidadãos formam, de fato, cidadãos. Currículos, professores e práticas laboratoriais que não abram o aluno para o diálogo com as diferenças e a realização de suas potencialidades dificilmente conseguirão formar jornalistas comprometidos com os direitos humanos, com a democracia, com ética e com a responsabilidade cidadã da profissão.
Assim, ao pensarmos um modelo de formação para o jornalista do século 21, que inevitavelmente terá como instrumentos profissionais as novas tecnologias do mundo globalizado, não devemos apenas nos preocupar com o currículo, mas também com a relação do discente com o mundo acadêmico, com o docente e, principalmente, com a construção de sujeitos autônomos.
Postular a presença da cidadania na formação do jornalista neste novo momento da ordem econômica mundial significa estimular a reflexão, a revisão e a reestruturação de valores democráticos. Talvez possamos pensar uma formação em que o jornalismo tenha um espaço amplo a ocupar no contexto da ciberdemocracia, como propõe Lévy, (2003); na efetivação de um mundo em que o poder (de poucos) seja substituído pela potência (de muitos).
É neste sentido que Gadotti (2000) estabelece também as suas reflexões sobre educação. Para ele, neste novo milênio deve-se ter em vista uma cidadania não apenas nacional, baseada no conceito de Estado-nação. Educar significa, sobretudo, preocupar-se com uma cidadania planetária em que os indivíduos não mais podem ser vistos como parte de ‘blocos’, mas como pessoas que necessitam estabelecer laços de colaboração em nome da sobrevivência do próprio planeta.

Refletir sobre a formação que deve ser proposta ao estudante de jornalismo é pensar, junto com ele, que tipo de mundo se quer para os próximos anos e se queremos, de fato, o jornalismo como um elemento integrador de uma comunidade global e democrática. A partir daí, formando cidadãos que estejam a serviço de cidadãos, a educação e a escola estarão dando a sua contribuição para que valha a pena ser jornalista.
O caminho é árduo, mas uma educação cidadã é também um trajeto possível e necessário para um mundo mais justo e mais humano, mesmo que a lógica desumana do capital e sua ideologia não o queiram. Como concluiu Evangelista, "Só vale a pena ser jornalista se for – como cantou Torquato Neto – para ‘desafinar o coro dos contentes’."

Referências bibliográficas
DUPAS, Gilberto. Ética e Poder na Sociedade da Informação. 2ª ed. São Paulo: Unesp, 2001.
EVANGELISTA, Fernando. Vale a pena ser jornalista? Caros Amigos. Ano X. Número 117, dezembro de 2006. P. 17.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
GADOTTI, Moacir. Pedagogia da Terra. Série Brasil Cidadão. São Paulo: Pierópolis, 2000.
PIERRE, Lévy. Pela Ciberdemocracia. IN: MORAES, Dênis de (Org.). Por uma Outra Comunicação, Rio de Janeiro, Record, 2003.
ROGERS, Carl R. Tornar-se Pessoa. Lisboa: Moraes Editores (Martins Fontes), 1973.